sábado, 7 de abril de 2012

Aglutinável

O meu maior medo? Não é de ti ou de mim, é dos outros. Não é bom quando a segurança depende de gente que pode acabar com tudo sem querer, alguém que nem conhece, nem vê. Eu tenho medo da inveja que eles tem. Dos desejos que eu sinto, das palavras que te rogo, do amor que te dedico. De tudo que eu escrevo pedindo para que leias, querendo que o mundo saiba, mas implorando para que ninguém almeje sentir ou ter igual. Por ti, por mim, por alguém. Porque o que tenho, é egoisticamente nosso.
Querendo ou não, isso tudo é feito de cristal que quebra fácil, que lasca como a unha, que me deixa tremula em pensar que não se pode consertar em dias. Que precisa polir, que não deve haver interferências, que merece atenção todas as horas sem deixar que ninguém me ocupe por mais tempo do que me ocupas. 
É tempo quando eu preciso. Há tempo, a tempos... preciso te guardar. Numa caixa, num espaço, num pedaço de papel, de mim. Um pedaço de ti na alma. Preciso dos sonhos, dos gostos, das tuas cores se  misturando com as minhas e criando uma só, assim: preto no branco. Sem listras, sem linhas, sem formas. O infinito em tela clara. Tenho sede de ser o teu meio, teu zelo, o teu fim. 
Quando foi eu te vi assim meu? Meu. Tenho o nome que eu peço a noite, no bar, na conta, na sala. 
Escrevo pela televisão, pelo quadro, no rosto. O teu nome, amor, na mão.
Eu te digo, e como te digo. É bem dito, amor, o meu orgulho pelo que se criou, que se fez aqui. Esse ninho. Por tudo o que eu sinto, tudo o que eu tenho, por pegar a tua mão e ir contigo. E me guias, e te guio. É bendito. 
Eu te amo, e palavra nenhuma me acompanha nesse sentimento mudo. Nem gesto quando perco minhas mãos. Amo-te no olhar. Nos meus olhinhos com os teus. E te sinto no coração. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tá bonita

Com todo cuidado do mundo, pé por pé. Foi assim que a paz chegou para mim: um belo dia me olhou, cutucou meu ombro, tentou entrar pelas pupilas. Tão calma.
Tão densa! Mas leve. Foi assim que a alegria voltou a morar aqui.
Nunca fui princesa de castelo de pedras. Alguns derreteram.
Construí tanta coisa com essas pessoas que vão chegando e, da mesma forma, partindo. Algumas delas eu deixei ali, no meu jardim. Jardim bonito, sabe? De encher os olhos e o coração. Tem corpos por todos os cantos. Tem flor por toda terra e, quando chove, vem aquele cheiro bom de infância na rede de casa onde eu via o céu desaguar ao entardecer enquanto me embalava pra lá e pra cá numa rede. Era frio. Um frio gostoso e externo. Demorou muito pra que a primavera fizesse morada no meu coração coberto de gelo, que agora é quente de novo. Livrei-me das armaduras, joguei tudo pro alto e respirei. A vida tá bonita pra se viver numa redoma. O ar que a bolha me tirava agora é fresco de novo. E eu respiro. Eu suspiro. E eu vivo assim, aliviada. As minhas mãos estão abertas pra receber o que tens guardado para mim.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Doce

Surpresa boa da vida é você que me apareceu quando eu menos poderia reparar ou lembrar.
Quis que se fizesse válida a palavra destino. O reencontro sóbrio. Aí você me chega leve e até tímido, cheio de perguntas afobadas e risadas de encher os olhos. Manso, mansinho. Louco de pedra, raro entre tantos. A gente não pediu nada, mas ganhou todo aquele momento.
Não esperávamos muito nem de nós e nem dos dias seguintes que, até então, eram vazios de dar dó. Mas desejamos - um desejo concedido - uma vida inteira, quem sabe? Porque, no fundo, a gente sabe quem é a pessoa certa. Não pelos gestos ou toques. Acontece que meu coração receoso encontrou com o seu, todo calejado. A gente se reconheceu assim:  o muito não era exagero e o pouco, vindo de ti, era suficiente.
Eu vi, mesmo cega, os seus olhos lindos entre duas janelas de carros: as suas e as minhas. Entre elas eu gostei deles. E, já de perto, dos seus cabelos de anjo e do seu cheiro. Gostei dos seus gestos, seus sorrisos e até a forma como fala sozinho enquanto dirige. Seus impulsos entre um assunto e outro com palavras que não tem nexo nenhum. Sua mania de perfeição. Suas mãos! A forma como me olha e me beija. A paciência e a calma. Eu já consigo gostar até do que ainda não existe. Às vezes eu penso e não acredito: você parece um pedacinho de mim. E é aí que tenho certeza: eu fui feita pra você.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Cariño

E no meio de minha loucura diária tu me surges de repente, e ver-te assim é como uma pequena epifania, uma centelha...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Desejo o inteiro.

Agora é por mim. Se doeu foi porque permiti. Se não dói mais e nem cócegas faz, é por mim, só por mim. Agora eu quero mesmo é música no máximo, bebida gelada e esmalte descascado. Toca pra descer e canta pra subir!

E você, vá dizer à vida que só estou pra ela e pra mais ninguém. Vá logo dizer que acordei dos anos que dormia, que o meu passado não me domina e que a lua é que me alumia. Vá, corra, e diga ao mundo que sou tua, só tua e minha. Que eu gosto é da verdade nua!

Quero do mundo os cantos de paz e euforia. E de tudo o que é feio, uma coisa bonita. Da festa, eu quero o brilho; do enterro, a agonia; do carnaval, a purpurina; na quarta-feira de cinzas, usar fantasia. Quero o doce que amarga e o amargo que azeda. Quero o trânsito em horário de pico, pra dizer a toda essa gente apressada um boa-noite não estressado; quero a chuva se misturando com a fumaça do carro. Quero o choro que inunda e a alegria que transborda. Nada de restos, metades e pedacinhos, quero inquietudes e infinitos. Quero o todo, a jóia do lixo. Quero, no meu quarto, pinturas abstratas, caixinhas-saudade e várias cartas espalhadas. Quero cheiro de chuva pela casa, cortinas voando janela afora e um par de asas. Do chuveiro, quero o alívio imediato. Quero torturar os pés com sapatos apertados e libertá-los, pois terei a felicidade barata. Quero agitação na calmaria e o oposto também. Quero a magia reinventada.

Amor? Ah, eu quero sim! Daqueles tipo sonho de padaria, salpicado com açúcar de confeiteiro. E mais duas porções deste "bem-amado" aqui, uma pra comer agora e a outra embrulhada pra viagem. E, por favor, em cima, um pouco de melado e confeitos de aniversário. E da alma, extraia até a ultima gota do último gomo e traga-me o suco. Nada de bater no liquidificador e nem sequer pôr um cubo de gelo. Sirva-me, mas antes tire o tanto que te sirva.

Que no céu a nuvem aconteça e do canto dos pássaros, venha a mais sincera poesia.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

.

Eu ainda não entendo o que me testa ou o que me confunde. Alguém que não quer machucar, mas já sou total sem coração por dilacerado que é este. Machuco sem sentir, embolorado por medo, dilacerado por dissabor, envenenado por desamor.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eu me sou.

Moro em algumas caixas, em algumas cabeças, embaixo de alguns pés e dentro de corações povoados. Disputo espaço com o que é relevante e raramente venço. Sei ser pesadelo, sei ser sonho. Eu consigo até ser real, de vez em quando. Sou de brotar na memória em dia de congestionamento. Sou de desfazer em retalhos, de ser reduzida em pedaços. Sou às vezes a menina sem nome. Sou o cheiro de sabonete depois do banho, a toalha molhada em cima da cama, o pijama amarrotado de manhã. Sou as olheiras, as bebedeiras, os sucos de maçã. Sou o colo, o pólo, um cubo de gelo. Sou o oposto, o imposto, o avesso. Sou mais inverno que verão. Mais outono que primavera. Mais fogo que caixão. Sou mais feia que bonita. Mais verdade que mentira. Sou de abraços, carinhos, aconchegos. Sou de liberdade. Sei fazer sofrer, mas não faço. Sei fazer chorar, mas não faço. Sei fazer morrer e me mato. Sei ser descartável, mas não gosto. Sou de dançar miudinho, de chorar baixinho, de sentar no cantinho pra ceder espaço. Sou de sussurrar, de cantar, de sonhar. Sou a do olhar pequeno, do amor miúdo. Sou de sustentar o sonho, de soprar o vento, de soltar os pássaros. Sou a do viver quietinho, a que não dá trabalho. Moro em favelas, castelos, nuvens e embaixo de asas de coruja. Sou mais de filme que de novela. Mais de queixo que de costelas. Mais de água que de terra. Mais de vento que de terra. Mais de mãos do que de pés. Mais de maios que de julhos. Sou mais de sonhos que de signos. Mais de vontade que de destino. Sou mais coração que cérebro. Mais de tropeços que de troféus. Sou mais de teatro que de cinema. Mais de cinema que de corrida. Mais de corrida que de academia. Sou menos alegre e mais agressiva. Menos amável e mais esquecível. Perecível, eu sou matéria. Sou mais de livros que de tragédias. Mais de quietudes que de modernos. Mais de solitude que de solidão. Mais de solidão que de aglomerados humanos. Mais de vicência que de saudade. Mais de infância que de tolice. Mais de sede que de fome. Mais de dentro que de fora. Um pouco humana, um pouco não-existente. Pairo entre o pálido e o branco. Prefiro chinelos à tamancos. Sou menos de levianos e mais de corações quentes. Sou mais de menos e menos de mais, sou redundante. Sou mais de perder que de roubar. Moro em poços, esboços, fundos de gavetas.